Estou falando, sou eu que estou aqui: o piano no terceiro andar do prédio continua tocando, meu coração que batia aos solavancos, continua batendo, os degraus que eu descia continuam descendo, e os degraus que eu subia continuam subindo. Silêncio. Estou aqui e penso: não foi a pressa que nos uniu e nem ela que nos separa, não foram minhas vertigens em escadas ou todos os passos que levaram a nada, não foram as rodoviárias, seu desamparo ou minhas retiradas. Foi vela que se apaga, esvoaça, vira fumaça. O tempo é outro, mas os telhados continuam se molhando. O vento esbarra balança desdobra e desmonta. Chove. Chove na praia chove no vale no asfalto e na estrada de barro chove na montanha, chove no morro. Chove nos olhos de quem já terminou e agora sabe que só resta ir embora.
nesses campos, no quintal da casa da tua infância na minha cidade e na tua cidade também atrás das altas vidraças e das redes da varanda me desenho em uma vila e não penso na partida a mulher que não abandona a si mesma e não consegue contar uma história completa e estou te dizendo isso há dias: você é meu único tesouro. escuta aqui! a vida corre, os trens partem sem saber do destino. aqui dentro eu tenho os olhos dele lá fora minha cabeça fala sozinha somos dois trens atrasados na vida do outro trilhos interligados antes da partida os mesmos vagões estilhaçados, mas acertamos a estação no fim da viagem; com atraso proposital de ambos construímos o que de agora em diante será a melhor viagem de nossas vidas
É manhã e a composição do dia é sol brando com o vento gelado que só se dá na esquina da minha rua, uma curva pequena, fechada. Leva mais tempo passar por ela do que leva para eu começar a sentir tua falta. Caminho por cinco minutos. A beirada da montanha me para e mostra a cidade que acaba de despertar. Meu peito está superlotado. Caminho por mais cinco e estou no mundo. No meio de todo o mundo. Perco-me no meio dessa gente, vísivel, olhos que são lupas. Há meu amor lá fora, é fatal e ele espera por mim. Quem te espera no fim do teu caminho?
O chá se torna frio na xícara toda vez que as palavras saem de mim, saem em correnteza.
As folhas param de cair, deixam de lado o intervalo regular que assumiram com a estação.
É a minha preferida e mais uma vez ela me acompanha cair.
Não preciso dizer mais nada, o ar úmido que entra pela fresta da janela sem permissão é a indicação fria do presente. Acabam as palavras. Acaba o chá. Eu também já acabei.
te escuto folhear meus poemas Veste teu casaco, enrola o cachecol no pescoço que agora já faz frio. O som do silêncio lá fora entrega tudo, os pássaros se escondem. Tu não chegará nem perto do teu destino se não apressar o passo, não se preocupe com o aceleramento dos batimentos, vai valer o esforço. Vamos, se apressa. "Um bom café pra aquecer. Mais um dia pra aborrecer" cantam no teu ouvido. Tranca a porta antes de sair, mas leva o peito aberto pra rua. Encara o cheiro que a neblina tem e as poucas luzes que permancem acesas. E caminha, agora sem pressa. Com metade de um sorriso e sabendo para onde deve ir.