O tempo não se divide e não para 
- existem provas e não há como discordar. 

Dia após dia as folhas tombaram e o inverno cresceu fora e dentro de mim, inúmeras vezes. 
Acreditava no tempo assim como no vento. Nunca o via, sentia passar. 
Enquanto os ponteiros do meu relógio voavam sentia-me aprisionar no solo,
brigando com algo por dentro que dizia que tudo era pouco.
Algo parecia querer contar a verdade, não uma que se precise provar, uma grande o 
suficiente para se acreditar; contaram-me que não se vive o tempo e ele nada importa,
que é a vida que não se divide e não para.
Ela que é nosso diálogo eterno, nossa melhor conversa.
Tempo é só tempo e quando não se vive ele se dispersa, vira acúmulo de segundos.
Os ponteiros do relógio foram caminhando mais devagar, em passos compassados e pude 
ouvir cada uma de suas batidas.
Tudo em volta tornou-se outro, não olhava mais com a pressa de quem
tem para onde ir, como se a vida estivesse esperando somente no minuto seguinte. 
Caminhei instantes dentro de uma noite fria até te encontrar e se qualquer coisa
houvesse me contado, não acreditaria no que aconteceria: contra todas as provas
o tempo se dividiu em dois, as batidas lentas do relógio pararam completamente, não havia mais direção que os ponteiros quisessem tomar, não havia mais outro lugar em que eu quisesse estar. Percebi então que o tempo para quando se consegue amar. 




Lembrei durante todos os dias
e percebi que algumas coisas não saem do lugar que ocupam.
Logo no outro dia esqueci.
Estive feliz por todo o tempo que morei em minhas próprias memórias,
mesmo quando caía todas as noites e a escuridão parecia ser preenchida
por pequenas explosões saídas de mim.
As explosões cessaram, a escuridão cansou
e tudo agora tem essa tonalidade amarelada
de foto que com o tempo descolore.
Uma ou outra coisa perdi - levaram.
Guardo comigo duas fotos e um carnaval.
Despedida é fardo pesado - sentimento condensado.
Retira um do outro em olhar desesperado.
Cada último toque quer se tornar penúltimo, todo olhar desvia do outro
por medo de encarar o que vai deixar.
Enfatizada pela distância que irá se criar, sente-se em poucos segundos o peso
do não saber se irá reencontrar.
Despedidas para breves ou longos momentos, não importa.
Em uma despedida a distância de quem se ama se traveste de fim do mundo e ali ficam os dois, imóveis - ninguém quer ser o último a olhar para trás.



Nasci em outra cidade, ela não existe mais e seu nome ninguém mais chama.
Queria saber por onde passeiam agora quem por lá passeava, onde foram
os restos das pedras que cobriam a rua de terra. Os restos do que fui.
Guardo na memória uma livraria, uma rua que asfixiei de silêncio, o cheiro dos dias nublados e cada estação que desmontava-se sobre mim. Escuto uma música que ninguém mais ouve.
Falo desses instantes em um grito que se lança - rompante.
Descontrole desesperado por controle.
Mas deixei ir, não era algo. Agora é nada.
Acolhi outro lugar, coloquei as mobílias e espalhei os tapetes. Aqui a luz se dissolve nas janelas, reflete nos espelhos mostrando a melhor parte do que encontrei. Portas só abrem para reencontros, nunca despedidas. Aqui, atalhos não são necessários, pois todos os caminhos levam para o lugar onde quero ir. Nasci em outra cidade, mas foi aqui - em ti- que me encontrei.
escolhe calar
cair

esconde o pensar
virar

não suporta o peso do pesar,
do que que não consegue acreditar.
então se desprende
e desaba.

sobra o ruído da voz quebrada.






tenho músicas favoritas,
cada uma pertence a um momento.

algumas parecem ter sido feitas propositalmente
para encaixar em um segundo específico.
no segundo específico em que teus dedos
se entrelaçaram aos meus pela primeira vez, por exemplo.

lembro da cena; do barulho que o sereno da noite fazia,
dos ruídos dos passos na estrada,
da tua mão apertando a minha, naquela curta caminhada.

fiz o caminho ser mais longo
no desejo de fazer o momento eterno
e assim tornou-se, até aqui.

três meses de eternidade
e o que vier depois dela.



















Acertos

Eles caminharam lentamente para cruzar o rio. Nadaram quando necessário e quase foram puxados pelo peso da correnteza. Correnteza que os manteria distantes um do outro. Mas, seus pés sobre o solo foram mais fortes e logo estavam os dois, de um mesmo lado da margem. Caminharam juntos para longe do rio.
Para perto do mar - essa grande cortina que abraça o abismo.
Eles ouvem pedidos vindos da água. Ele a observa. Ela deita na areia e espera até o início da manhã. Quando a ressaca do mar traz de volta o que levou. Depois levanta e junto com ele caminha para longe do mar. Para mais perto de outro caminho que resolveram trilhar. 
Caminham por uma estrada. Uma estrada ladeada por pinheiros. Pinheiros que arqueiam vez ou outra com o balanço que o vento faz. Ouvem o canto dos pássaros, que sossega o ouvido e arranca de si seus ruídos. 
Não contaram os dias, apenas caminharam. 
Pouco falaram, apenas observaram - os pinheiros, as pinhas nos pinheiros, a estrada, a terra na estrada, o ruído de seus passos na terra da estrada, o ruído dos passos do outro, o ruído do vento nas árvores mais frágeis, a fragilidade do silêncio quando a noite chegava, o olhar que incendiava, quando um ao outro tocava.

Depois de um mês inteiro andando, já não sabiam mais para onde estavam indo - e não se importavam muito com isso. Não diziam um ao outro, mas sentiam que ao andarem juntos faziam o caminho parecer mais leve.