É isso que acontece: eu desmaio interiormente, esbarro no senhor que passa e que consequentemente esbarra num próximo, numa sucessão de 'esbarramentos' impressionantes. Em seguida, abre-se uma fenda no chão; o céu se parte em dois e torna-se o teto da capela sistina; as nuvens tocam o chão; as paredes desmoronam e vejo que as árvores que crescem perto do rio estão marchando com milhares de pássaros pousados em seus galhos. E as folhas secas das árvores agora são notas, que uma após outra caem em intervalos dissonantes. E os pássaros param de cantar e o vento desiste de soprar. E por um instante o ar parece não ocupar o seu lugar. E o infinito torna-se finito.
É, é isso que acontece. Mas é provisório, só até acostumar com esse jeito bonito teu de olhar.
Deu pra escutar a batida estranha do meu coração, o passo em falso que ele deu, a coreografia de sapateado inteira que ele resolveu dançar, quando te viu?
Deu pra escutar meus olhos estralando feito água em azeite quente; deu pra ver eles aumentando, brilhando feito sol poente?
Só perguntei por perguntar, porque eu nem me importo. Sem problema se não viu ou viu e fingiu que não viu, sem problema não ter escutado ou fingir não ter escutado. Não me importo se não sabes ou fingi que não sabes.
Acho que no fim, fico bem de saber que não sabes, ou de não saber se finges ou se sabes.
Deu pra escutar meus olhos estralando feito água em azeite quente; deu pra ver eles aumentando, brilhando feito sol poente?
Só perguntei por perguntar, porque eu nem me importo. Sem problema se não viu ou viu e fingiu que não viu, sem problema não ter escutado ou fingir não ter escutado. Não me importo se não sabes ou fingi que não sabes.
Acho que no fim, fico bem de saber que não sabes, ou de não saber se finges ou se sabes.
"E quando ela ri, eu tenho vontade de chorar. Não de tristeza, mas porque cada gargalhada é como uma nota musical que toca ao coração e faz querer dançar.
Aprende que a arritmia que sente com ela é normal! E que a falta dela é um vazio igual à morte.
Espero que sejas tudo o que eu nunca fui. Espero que a trates bem.
Porque se lhe partires o coração vais perdê-la para sempre."
Olhos Fechados
Vejo teu rosto em todos os rostos do mundo. Mesmo naqueles rostos mais esquecidos, de gente apressada, que passa caminhando com os olhos fixos no chão. Vejo de maneira superficial muitas vezes, só pra amenizar a saudade de sentir a calma que teu semblante trás.
Consigo ver o modo como tu sacode o cabelo e o jeito teu de andar também. Agora, esse par de olhos azuis que acalmam e incendeiam, que guiam e fazem perdido, que tiram as medidas da alma, esses eu não consigo encontrar em outro lugar que não em ti.
Consigo ver o modo como tu sacode o cabelo e o jeito teu de andar também. Agora, esse par de olhos azuis que acalmam e incendeiam, que guiam e fazem perdido, que tiram as medidas da alma, esses eu não consigo encontrar em outro lugar que não em ti.
Essa sólida ausência, que passa por fraca monotonia.
Essa ilusão da consciência que se transforma em agonia.
Essa vontade agora multiplicada, de ser instrumento e compositor da peça inteira, de não ser apenas uma sombra de si mesmo, que se contenta em vivenciar o que lhe compuseram.
Essa vontade de compor sua própria vida sem prelúdios, sem dissonâncias, sem exigências do princípio ao fim.
Essa ilusão da consciência que se transforma em agonia.
Essa vontade agora multiplicada, de ser instrumento e compositor da peça inteira, de não ser apenas uma sombra de si mesmo, que se contenta em vivenciar o que lhe compuseram.
Essa vontade de compor sua própria vida sem prelúdios, sem dissonâncias, sem exigências do princípio ao fim.
Insuficiente II
Alguém que conte a minha história estranha e insuficiente.
Não de amor, nem de lágrimas, insuficiente de final feliz,
insuficiente de tudo que eu pensei ser o suficiente.
Insuficiente por não ter na vida minha, a vida que pensei que seria nossa.
Só espero de quem contá-la, que conte-a bem.
Espero que a conte mais minha do que de qualquer outro, como
recompensa por essa minha história estranha e insuficiente.
Não de amor, nem de lágrimas, insuficiente de final feliz,
insuficiente de tudo que eu pensei ser o suficiente.
Insuficiente por não ter na vida minha, a vida que pensei que seria nossa.
Só espero de quem contá-la, que conte-a bem.
Espero que a conte mais minha do que de qualquer outro, como
recompensa por essa minha história estranha e insuficiente.
O Amor Acontece Assim
O amor acontece, assim. Assim, sem noticiar antes. Numa esquina, por exemplo. Em um sábado chuvoso em que os planos nem incluíam sair de casa; na fila da lanchonete, na escolha aleatória de um café; no meio de uma multidão; depois de um dia triste, no banco de um jardim; de repente no meio da fumaça, tu encontra alguém.
Acontece também por causa de cinco minutos de atraso, que consequentemente te levam a passar na mesma rua de sempre cinco minutos depois ou por uma parada na banca de revistas. Numa insônia estranha que te leva pra fora de casa de roupão e chinelos de pano; entre o creme e a baunilha, na sorveteria da praça; na parada brusca do elevador; na fila da vacina; nas poucas sílabas distantes em uma reunião; num pequeno hotel no sul da Itália ou em alguma rua empoeirada de Dubai. Ali o amor pode ser, acontecer, ter fim e ressurgir.
Simplesmente, em um domingo de sol na beira da piscina; entre o pólen das flores; na compra de um ar-condicionado; no quinto museu do roteiro de viagem; no ônibus; na primeira viagem de trem, na segunda, quem sabe até na terceira; numa sala pintada com tinta esmaltada; num momento desesperador; no meio de um ataque de soluços (que se enquadra perfeitamente em um momento desesperador); na conjugação errada de um verbo; no mar gelado; no florir da primavera; na manhã do dia três de agosto ou no entardecer de trinta e um de janeiro; numa sala de espera; num olhar curto; no momento em que um riso te desarma, não importa.
O amor é sempre tão você-não-tem-o-direito-de-escolher. E não tem mesmo. O amor acontece, assim. Assim, sem noticiar antes.
Acontece também por causa de cinco minutos de atraso, que consequentemente te levam a passar na mesma rua de sempre cinco minutos depois ou por uma parada na banca de revistas. Numa insônia estranha que te leva pra fora de casa de roupão e chinelos de pano; entre o creme e a baunilha, na sorveteria da praça; na parada brusca do elevador; na fila da vacina; nas poucas sílabas distantes em uma reunião; num pequeno hotel no sul da Itália ou em alguma rua empoeirada de Dubai. Ali o amor pode ser, acontecer, ter fim e ressurgir.
Simplesmente, em um domingo de sol na beira da piscina; entre o pólen das flores; na compra de um ar-condicionado; no quinto museu do roteiro de viagem; no ônibus; na primeira viagem de trem, na segunda, quem sabe até na terceira; numa sala pintada com tinta esmaltada; num momento desesperador; no meio de um ataque de soluços (que se enquadra perfeitamente em um momento desesperador); na conjugação errada de um verbo; no mar gelado; no florir da primavera; na manhã do dia três de agosto ou no entardecer de trinta e um de janeiro; numa sala de espera; num olhar curto; no momento em que um riso te desarma, não importa.
O amor é sempre tão você-não-tem-o-direito-de-escolher. E não tem mesmo. O amor acontece, assim. Assim, sem noticiar antes.
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