Ontem me perguntaram como tenho certeza que existo. Disseram-me que posso ser só um pedaço de memória, alguma vivida em outro tempo. Assim feito uma estrela, que ilumina mesmo depois que se apaga. Ontem quando me perguntaram como tenho certeza que existo, pensei em ti.
Em quando vivia sem tu existir - só existe quem percebemos. 
Pensei no que tu fazia na noite em eu tremia atrás das cortinas do palco antes do meu primeiro recital ou em que eu pensava enquanto tu escrevia teu primeiro poema.  A gente só existe quando conta pra alguém que está ali, quando se deixa perceber. Por isso o mundo tem essa capacidade mágica, pende de um lado para o outro sem que percebamos, obrigando que uma pessoa esbarre na outra. Foi em um desses lados que esbarrei em ti.
Ontem quando me perguntaram como tenho certeza que existo, pensei em ti pois é quando te amo que sinto que existo.





Penso que quando eu for só poeira qualquer dia desses,
uma lembrança da madrugada, só um pouco de nada.
Lembrarei do teu rosto.
E tu, talvez, lembrará do meu.

Escrevo porque tenho que escrever

Queria trazer-te palavras diferentes, nunca antes escritas, nem por mim ou por qualquer um que já viveu. Queria inventar novas, tirá-las do mais íntimo de mim.
Suas palavras seriam as mais simples do mundo, fáceis de serem pronunciadas e fortemente iluminadas. 
Por hora ainda não te escrevo nenhuma palavra nova, são as mesmas dos últimos quatro meses, uma repetição incansável que escorre sobre o papel. 
Junto uma a uma para depois desdobrá-las, feito um origami.
Desperto do devaneio e não me importa mais que as palavras possam se repetir - o céu também repete sua cor e não há quem fale mal. 
Então escrevo, porque escrever é sonhar por dentro de si. 
É poder escolher com um lápis o que é fim e o que é recomeço, é descobrir que um parágrafo tem força para separar a alegria da tristeza e um verso tem espaço para armazenar um amor inteiro. Escrevo porque meu coração bate e meus olhos percebem, porque além do que sei de mim não sei de mais nada. Escrevo porque uma esquina me emociona e a distância me aprisiona. Escrevo porque sempre me esqueço em algum canto e escrever é encontrar.




O tempo não se divide e não para 
- existem provas e não há como discordar. 

Dia após dia as folhas tombaram e o inverno cresceu fora e dentro de mim, inúmeras vezes. 
Acreditava no tempo assim como no vento. Nunca o via, sentia passar. 
Enquanto os ponteiros do meu relógio voavam sentia-me aprisionar no solo,
brigando com algo por dentro que dizia que tudo era pouco.
Algo parecia querer contar a verdade, não uma que se precise provar, uma grande o 
suficiente para se acreditar; contaram-me que não se vive o tempo e ele nada importa,
que é a vida que não se divide e não para.
Ela que é nosso diálogo eterno, nossa melhor conversa.
Tempo é só tempo e quando não se vive ele se dispersa, vira acúmulo de segundos.
Os ponteiros do relógio foram caminhando mais devagar, em passos compassados e pude 
ouvir cada uma de suas batidas.
Tudo em volta tornou-se outro, não olhava mais com a pressa de quem
tem para onde ir, como se a vida estivesse esperando somente no minuto seguinte. 
Caminhei instantes dentro de uma noite fria até te encontrar e se qualquer coisa
houvesse me contado, não acreditaria no que aconteceria: contra todas as provas
o tempo se dividiu em dois, as batidas lentas do relógio pararam completamente, não havia mais direção que os ponteiros quisessem tomar, não havia mais outro lugar em que eu quisesse estar. Percebi então que o tempo para quando se consegue amar. 




Lembrei durante todos os dias
e percebi que algumas coisas não saem do lugar que ocupam.
Logo no outro dia esqueci.
Estive feliz por todo o tempo que morei em minhas próprias memórias,
mesmo quando caía todas as noites e a escuridão parecia ser preenchida
por pequenas explosões saídas de mim.
As explosões cessaram, a escuridão cansou
e tudo agora tem essa tonalidade amarelada
de foto que com o tempo descolore.
Uma ou outra coisa perdi - levaram.
Guardo comigo duas fotos e um carnaval.
Despedida é fardo pesado - sentimento condensado.
Retira um do outro em olhar desesperado.
Cada último toque quer se tornar penúltimo, todo olhar desvia do outro
por medo de encarar o que vai deixar.
Enfatizada pela distância que irá se criar, sente-se em poucos segundos o peso
do não saber se irá reencontrar.
Despedidas para breves ou longos momentos, não importa.
Em uma despedida a distância de quem se ama se traveste de fim do mundo e ali ficam os dois, imóveis - ninguém quer ser o último a olhar para trás.



Nasci em outra cidade, ela não existe mais e seu nome ninguém mais chama.
Queria saber por onde passeiam agora quem por lá passeava, onde foram
os restos das pedras que cobriam a rua de terra. Os restos do que fui.
Guardo na memória uma livraria, uma rua que asfixiei de silêncio, o cheiro dos dias nublados e cada estação que desmontava-se sobre mim. Escuto uma música que ninguém mais ouve.
Falo desses instantes em um grito que se lança - rompante.
Descontrole desesperado por controle.
Mas deixei ir, não era algo. Agora é nada.
Acolhi outro lugar, coloquei as mobílias e espalhei os tapetes. Aqui a luz se dissolve nas janelas, reflete nos espelhos mostrando a melhor parte do que encontrei. Portas só abrem para reencontros, nunca despedidas. Aqui, atalhos não são necessários, pois todos os caminhos levam para o lugar onde quero ir. Nasci em outra cidade, mas foi aqui - em ti- que me encontrei.