Bom, eu não esperava que fosses ficar por muito mais tempo. Parece-me que desde o início estávamos fadados a nos separar. Separar. Não entenda mal, digo um separar mais profundo do que esses que simplesmente afastam as pessoas, pessoas que compartilharam todos os tipo de experiências e depois passam como desconhecidos pelas ruas ensolaradas, fingindo que o sol cegou a visão no instante em que a pessoa passava. Digo separar, de tirar. Levar pra longe.
Espero que não esqueças da primeira vez que nos vimos, pois eu ainda lembro dos seus pés no assoalho de madeira. Espero que saibas, que por vezes quando sozinha pela cidade, vejo você em outras pessoas. Ali percebo o quanto és importante, pois meu coração acelera só com a sua projeção no corpo de outras pessoas. Espero que lembres das nossas caminhadas noturnas e de como conseguíamos caminhar por horas, falando por horas, como se o tempo não fosse nunca passar; mas passou. E passou tão rápido. Não consegui caminhar contigo por todas as ruas que queria; Não consegui te fazer rir de todas as maneiras que queria. Nem te irritar o suficiente, fingindo não escutar o que tu dizia - mesmo tendo entendido já na primeira vez. É que era tão bonito de observar o quanto conseguias interpretar, uma mesma pequena frase, de diferentes formas. Espero também, que tenhas percebido o que acontecia comigo cada vez que estávamos juntos. E contigo também, consequentemente. Queria ter tido um pouco mais de tempo, só pra te contar detalhadamente, cada pequeno gesto seu que admiro. Saiba que fotografei você mentalmente de tantos ângulos diferentes, que conseguiria encher uma galeria com tuas fotos.
Espero não estar sendo repetitiva, sei que falo mais do que devia, mas é que sinto que ainda há muito o que se dizer. Acho que vou continuar, afinal sentiremos falta disso. De falar demais. Acho que a gente sempre falou demais. Não consigo me lembrar de muitos momentos em que ficamos em silêncio, os dois. Espero que tu tenhas me falado tudo que tivesses vontade de dizer, em todos os momentos, pois sempre estive preparada pra te ouvir. Existem tantas coisas ainda sobre as quais não conversamos. Tantos trocadilhos (ruins) a serem feitos. Parece que tu está indo pra cadeira elétrica, eu sei, mas deixe-me expressar o meu drama com minhas peculiaridades todas, por favor. Acho que percebi o que tu significaria nos momentos em que observavas os mesmos pequenos detalhes que eu, esses que ninguém percebe; o brilho do sol que reflete de um jeito bonito na janela. Sem nos darmos contas, chegamos na vida um do outro no momento exato em que deveríamos ter chegado, conseguisses enfim, não se atrasar pra alguma coisa - e agradeço muito por isso.
Quero te agradecer por todas as manhãs, tardes e noites que colorisses. Lembro com carinho de todas. Te odeio tanto por deixar lembranças tuas em cada ponto dessa cidade minúscula. És tão irritantemente presente que marcasses meu território mental até o Paraná. Falando em território mental, o meu está cheio de coisas que nunca vou te dizer, cheio de medos. Medos de todos os tamanhos. Medo de que esqueçamos, os dois, de como era sentirmo-nos na companhia um do outro. E de que toda essa cumplicidade seja empurrada pra longe com o passar das estações. Talvez sejam medos infundados, talvez eu descubra a existência de coisas até então inexistentes. Talvez não.
Sempre lembrarei de como aos poucos fosses invadindo todo o espaço, antes vazio, que existia em mim. Aos poucos. Até se tornar tudo isso que és agora. Coisa que na verdade nem sei. Não sei o que és pra mim. Não sei nem que tu és de verdade, em vezes cheguei a pensar que projetei em ti tudo que esperava ver em alguém. Mas minhas teorias todas se foram, levastes todas embora; fazendo tudo que eu menos esperava que alguém fizesse por mim. E o melhor? Nem sabias que o fazia, enquanto o fazia. Descobri assim que não queria me fazer feliz, apenas fazia. Sendo o que és.
Não sei em que momento você parou de entender o que eu estou tentando dizer, mas espero que entendas que isso que tivemos (seja lá o que for) foi bonito de tantas formas diferentes, que nem consegui organizar as palavras de forma conexa, mas espero que com estas, tu consiga entender.
Até logo.
Estava escrito em uma linha.
Uma linha dessas sem término, que liga uma montanha à outra.
Havia de ter que sentir e assim se fez.
Mas no perceber, foi como um derramar de peças soltas para dentro de mim.
Como se balançassem tudo que aqui havia; um balanço feito das cordas que ligam as montanhas.
Foi um virar pelo avesso. E mesmo tentando, não mais conseguir desvirar.
Questionei o porque e disseram-me que não fazia parte do contrato.
Com voz grave informaram "é terminantemente proibido
e fora dos padrões, deixar de amar".
Uma linha dessas sem término, que liga uma montanha à outra.
Havia de ter que sentir e assim se fez.
Mas no perceber, foi como um derramar de peças soltas para dentro de mim.
Como se balançassem tudo que aqui havia; um balanço feito das cordas que ligam as montanhas.
Foi um virar pelo avesso. E mesmo tentando, não mais conseguir desvirar.
Questionei o porque e disseram-me que não fazia parte do contrato.
Com voz grave informaram "é terminantemente proibido
e fora dos padrões, deixar de amar".
Derramo pelo vento cada tom de voz que aqui deixaste.
Tiro da sacola os tons todos; um a um jogo-os pelos ares da campina, lentamente,
com os olhos fechados, para não ver os pedaços de ti que partem.
Junto vão as cores que vieram contigo, cores de outono,
a cor dos teus olhos - e a sinceridade bonita que via neles e tanto gostava,
entrega-se ao vento e parte também.
Os sons parecem preferir ficar, mas os lanço o mais longe que consigo. Pois agora o som bonito da tua risada e a calmaria da tua voz, soam atonais.
Por fim viro a sacola pelo avesso, para que se houver ainda qualquer pedacinho de ti, ali escondido, não volte comigo para casa.
Numa tentativa desesperada de parecer racional para as pessoas que me observavam pegando nadas com as mãos e jogando nadas ao vento, coloco a sacola no ombro direito e saio andando. Andando com a calmaria que só alguém com uma sacola vazia consegue ter.
É como se tu tivesses surgido (de novo) por trás de uma das centenas de montanhas que observo todos os dias; como o vento do alto dos picos, que leva embora minhas mágoas e me traz bonitas (e novas) lembranças. Às vezes és ventania e parte-me ao meio e levas um pequeno pedaço de mim
a cada adeus que sopras. Aprendi a lidar com isso de um modo bem meu, aprendi a ser vento e ventania, aprendi a ser sozinha.
a cada adeus que sopras. Aprendi a lidar com isso de um modo bem meu, aprendi a ser vento e ventania, aprendi a ser sozinha.
Tudo é provisório
Dias de céu limpo e brisa suave são propícios para a constatação do óbvio. Muito principalmente sobre nossas próprias obviedades. Eles tendem a ser cheios de pequenas contemplações momentâneas, cheios de impressões de que a fé é doada em cada esquina - e que ela nunca há de nos faltar.
Encontra-te também nesses dias, a vontade do futuro: coragem construída para o que quer que esteja por vir. E até mesmo com o sol te cegando a visão, consegues entender que tudo ao teu redor é provisório. Inclusive os dias que parecem ser feitos para constatações. Inclusive o céu limpo e a brisa. Inclusive nós.
Encontra-te também nesses dias, a vontade do futuro: coragem construída para o que quer que esteja por vir. E até mesmo com o sol te cegando a visão, consegues entender que tudo ao teu redor é provisório. Inclusive os dias que parecem ser feitos para constatações. Inclusive o céu limpo e a brisa. Inclusive nós.
Para ter certezas
A inocência caminha em silêncio profundo.Tão imperceptivelmente que nem se sente ela, a cada hora, pendendo para um lado da corda bamba que é o coração.
Dizem que quando ela pende para o lado direito, tende a prejudicar inteiramente o corpo que habita. Isso porque acaba se segurando com todas as suas forças nos sentimentos que moram por aquelas bandas. Há boatos que segura-se com tanta força na confiança que até mesmo faz com que sintam que é possível se ter certezas.
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