A sensação que o desapego causa é da maior estranheza.
Tu se vê liberto, preenchido por si próprio,
e vazio.
Sente a vida inteira como uma dessas montanhas
inexploradas e imensas. Se vê obrigado de uma hora pra outra, a ser inteiro sozinho.
Ao mesmo tempo, procura razões para o sorriso que não vem;
tenta ocupar o lugar do riso que não deseja mais ouvir,
com o barulho que as panelas fazem quando caem no chão;
(Por isso, acaba derrubando muitas panelas por dia.)
Quando noite, procura no vazio a tristeza
 e o apego que um dia existiu.
Percebe um apego ao apego.
E a total rejeição ao próprio desapego.

Capela Sistina

É isso que acontece: eu desmaio interiormente, esbarro no senhor que passa e que consequentemente esbarra num próximo, numa sucessão de 'esbarramentos' impressionantes. Em seguida, abre-se uma fenda no chão; o céu se parte em dois e torna-se o teto da capela sistina; as nuvens tocam o chão; as paredes desmoronam e vejo que as árvores que crescem perto do rio estão marchando com milhares de pássaros pousados em seus galhos. E as folhas secas das árvores agora são notas, que uma após outra caem em intervalos dissonantes. E os pássaros param de cantar e o vento desiste de soprar. E por um instante o ar parece não ocupar o seu lugar. E o infinito torna-se finito.
É, é isso que acontece. Mas é provisório, só até acostumar com esse jeito bonito teu de olhar.
Deu pra escutar a batida estranha do meu coração, o passo em falso que ele deu, a coreografia de sapateado inteira que ele resolveu dançar, quando te viu?
Deu pra escutar meus olhos estralando feito água em azeite quente; deu pra ver eles aumentando, brilhando feito sol poente?
Só perguntei por perguntar, porque eu nem me importo. Sem problema se não viu ou viu e fingiu que não viu, sem problema não ter escutado ou fingir não ter escutado. Não me importo se não sabes ou fingi que não sabes.
Acho que no fim, fico bem de saber que não sabes, ou de não saber se finges ou se sabes.



"E quando ela ri, eu tenho vontade de chorar. Não de tristeza, mas porque cada gargalhada é como uma nota musical que toca ao coração e faz querer dançar. 
Aprende que a arritmia que sente com ela é normal! E que a falta dela é um vazio igual à morte.
Espero que sejas tudo o que eu nunca fui. Espero que a trates bem.
Porque se lhe partires o coração vais perdê-la para sempre."



https://www.youtube.com/watch?v=I4hJxTIh5Pw


Olhos Fechados

Vejo teu rosto em todos os rostos do mundo. Mesmo naqueles rostos mais esquecidos, de gente apressada, que passa caminhando com os olhos fixos no chão. Vejo de maneira superficial muitas vezes, só pra amenizar a saudade de sentir a calma que teu semblante trás.
Consigo ver o modo como tu sacode o cabelo e o jeito teu de andar também. Agora, esse par de olhos azuis que acalmam e incendeiam, que guiam e fazem perdido, que tiram as medidas da alma, esses eu não consigo encontrar em outro lugar que não em ti.

Essa sólida ausência, que passa por fraca monotonia.
Essa ilusão da consciência que se transforma em agonia.
Essa vontade agora multiplicada, de ser instrumento e compositor da peça inteira, de não ser apenas uma sombra de si mesmo, que se contenta em vivenciar o que lhe compuseram.
Essa vontade de compor sua própria vida sem prelúdios, sem dissonâncias, sem exigências do princípio ao fim.

Insuficiente II

Alguém que conte a minha história estranha e insuficiente.
Não de amor, nem de lágrimas, insuficiente de final feliz,
insuficiente de tudo que eu pensei ser o suficiente.
Insuficiente por não ter na vida minha, a vida que pensei que seria nossa.
Só espero de quem contá-la, que conte-a bem.
Espero que a conte mais minha do que de qualquer outro, como
recompensa por essa minha história estranha e insuficiente.