a menina
acorda assustada
no meio da noite
procura arrastada
pelo copo de leite

a flor está no chão
tentando chegar a porta 
fugindo da solidão
nada mais importa

antes da partida 
um ultimo suspirar 
uma pequena despedida
com vontade de chorar

pensa estar errada
em a menina ali deixar
sente-se egoísta
e decide ao vaso voltar

já na segunda hora da manhã a menina acorda
olha a flor um tanto torta
já não lhe quer, prefere uma rosa
joga-a então pela janela aberta

lá no chão o copo de leite chora
nunca mais terá compaixão
se atreve até a dizer que nenhum amor
tocará de novo o seu coração












Vergonhoso o fato de querer-te presente.
De perceber que uma simples e distante presença me faz feliz.
Engraçado ver que conforme passeias de modo disfarçado para longe de mim
conforme se aplica na busca desenfreada pela fuga
Me arrasta contigo
Me deseja presente.
Longe.
Acho feliz.
Feliz decisão.
Essa de me ver encolhendo.
Abraçando-me por dentro numa espécie de contorcionismo doentio.
Fingir um certo 'importar' com minha dor.
E seguir em frente.
Motivo. Nenhum aparente.
Seria a sua eterna busca pela felicidade.
Tão superestimada.
Felicidade.
Apenas felicidade.
Enjoa.


A capacidade de ter sentimentos opostos.
Aleatórios.
Desconexos.
Sobre tudo.
Sobre você.
Querer a preocupação dos outros.
Querer que se importem.
Mas querer também afastá-los.
Todos.
É como pedir a chave da cela e logo em seguida jogá-la pela janela.
É não gostar de estar presente e nem de não ser lembrada.
É não amar alguém até o momento em que ele diz adeus.
É mudar pra agradar mesmo desprezando-se por isso.
É detestar-se por ser tola e frágil
mas não sentir a necessidade de ser forte.
A estranha capacidade de ser.





Vou me entregar a vocês
Vocês estão me devorando por dentro.
Tentando-me a imaginar ser algo que não sou
que não posso ser.
Me fazem companhia nas noites frias.
Dormem sobre meu peito.
São tocados pelas minhas mãos todos os dias.
Estão constantes.
Escondidos.
Perdidos.
Nas estantes.
Nas gavetas.
Esquecidos no consultório do dentista.
Sinto a ausência.
Depois de usados. Virados e revirados.
Esqueço-lhes nos cantos.
Livros são como pessoas.





Da pra você me esperar?
Da pra dar um jeitinho?
Acalmar.
Aguardar eternamente se possível.

Quero te acompanhar.
Só que não sei onde estou.
Vou ter que correr pra te alcançar.
Acabar com meu combustível de amor.


Procuro você nas esquinas.
Abro portas e encontro o escuro.
Topo com janelas abertas.
Caio três vezes.
Levanto mais três.

Onde que fica a sua sala de espera?
Vou ter que me recompor antes de te encontrar.





Acordar. Olhar no espelho.
Ter alguém ali
te olhando com cara de poucos amigos.
Com cara de "me tira dessa monotonia exagerada!"

Andar. Olhar ao redor.
Não ver ninguém.
Andar devagar, enquanto seus pensamentos atropelam seus companheiros.
Machucam quem se atrever a atrapalhá-los
Te fazem sofrer por querer abandoná-los.

Parar. Fechar os olhos.
Tentar cegar os pensamentos.
Tentar enganá-los.
Errar de propósito.
Procurar um meio para que eles esqueçam de você.

E se eles esquecerem.
Se teus próprios pensamentos te abandonarem.
Que vai ser de ti. 
Já tão sozinha.
Tão perdida em si mesma.
Tão constante nesse sentimento barato de querer se encontrar.


Melhor deixar eles por aqui.
Segurá-los com força.
Sem eles serias só uma boneca sem alma.
Pense.
Mesmo que te doa o coração.
Pra evitar a todo custo a sensação
de se olhar por dentro e não achar ninguém.

Fique onde você bem quiser.
Esteja onde queira estar.
Mas antes de ir.
Sair daqui.
Deixa um bilhete.
Faz um mapa.
Assim, simples, fácil.
Nem legenda precisa ter.
Só um meio pra eu poder te encontrar.

Prometo não te atrapalhar.
Faço pequenas visitas.
Rápidas.
De dois em dois meses.
Ou a cada duas horas.
Se te parece muito, já planejo uma linda história.
Pra tu esquecer que estou ali.
Esquecer de me mandar embora.

Se me ouvir não te agradar
posso te levar um presente.
Um cabide.
Agora não há desculpas pra não me encarar,
pra não ficar do meu lado.
Ali sentado, na beirada do sofá.

Quando chegar a hora de ir embora,
me despeço de você e
sorrateiramente me dirijo lá pra um canto.
Me transformo em peça de roupa.
Você me acha, não me reconhece,
me pendura no cabide.
Fico lá no armário escuro.
Dentro do teu quarto.
Daí só me resta rezar, pedir, implorar.
Pra de vez em quando a porta do armário
você esquecer de fechar.