tenho ouvido para o descabido
pra tudo que atormenta por dentro
e atinge o peito, no centro
pra tudo que confunde e me funde
contigo, me inunde

ouço cada palavra tua
si la bi ca men te separada
gramaticalmente acentuada
foneticamente atormentada

ouço o gesto teu
que rima hora ou outra com o meu
ouço o que tu me escondeu
o último sorriso que tu me deu

ouço teu passo incerto
que traz pra perto
o que há pouco foi descoberto
e assim me conserto
no concerto que é ouvir que tu existe.








espero
e me desespero
em algum descuido
me despercebi
quando te vi
não gosto de como me perco fácil
quando alguém me encontra





tocar teu rosto
é igual fechar os olhos e sentir o vento de fim de tarde
é como sorrir depois de chorar por muito tempo
ou como quando a luz volta depois de horas no escuro.
é cesta de três pontos no basquete e
gol do Brasil no final do segundo tempo.
é segurar xícara de café com as duas mãos
e colocar casaco quente depois de andar na noite fria
é banho quente no inverno
e banho de chuva no verão
é pisar em folha de outono que estrala
andar no meio fio até o fim, sem desequilibrar
rodopiar a diagonal inteira do balé sem tontear
é noite de verão pra ficar de frente pr'o mar
é como deitar na grama em tarde ensolarada de inverno
olhar pela janela do ônibus quando tudo está deserto
analisar gente estranha de passo incerto
é ficar sozinho quando quer
ou ter alguém do lado quando precisa

(tocar teu rosto é quase tão bom quanto te ter comigo)








Conta pra ele da batida dissonante que é sentir a falta dele.
Do som que ressoa, ecoa
toda vez em tua mente
e que esse som é o da voz dele
e que a voz dele tem um tom que é o melhor que tu já ouviu.
Conta pra ele que sonhou com ele na noite passada,
mas que foi com os olhos abertos
enquanto atravessava a rua.
Conta pra ele que todo toque dele em ti te arremessa
do Círculo Polar Ártico ao deserto do Atacama.
Que quando ele segura a tua mão tudo em volta destoa
destona, se faz dissonante.
Conta pra ele que quando ele te abraça tu se sente deslocar por dentro
e que teu coração sai do compasso.

Conta pra ele.


Eu queria te entregar um milhão de palavras,
empilhadas, amontoadas, te soterrar delas até perto de cortar tua respiração.
Queria escrever elas em todos os muros no caminho da minha casa até na tua.
Acho que faltaria muro e faltaria palavra; mesmo pra mim que sempre me achei tão cheia delas.
Acabei por perceber que existe gente que é maior que qualquer palavra, gente que por si só é poesia, poema inteiro, daqueles com rima e métrica.
Gente que quando fala é mais bonito de ouvir do que um da Cecília Meireles, que quando encosta o toque, toca mais que um do Fernando Pessoa e que quando sorri estremece tudo por dentro, feito um dos sonetos do Neruda. Não sabia da existência de gente como tu, gente que não tem palavra pra explicar o que é sentir perto. Que faz parecer que de todas as palavras do mundo a mais bonita é substantivo próprio, com letra maiúscula em todas as quatro palavras do teu nome. 






Eu não acreditava que tu chegaria.
Afirmei por um bom tempo e com muita convicção, para o vento que quisesse ouvir. Porque não havia o que pudesse tirar de mim o emaranhado todo onde havia me colocado, era raiz demais, de memória demais, era terra demais, água demais, de choro demais e que de tanto demais já não era mais meu, já nem era mais eu.
Eu não acreditava que tu chegaria.
E por não acreditar, acostumei, conformei. Permaneci no emaranhado aqui de dentro.
Fiz dele casa. Morada pra viver de sonho que não acontece. Tranquei por fora e por dentro janelas e portas, pra impedir qualquer sinal de sonho novo.
Eu não acreditava que tu chegaria.
Enquanto eu me encarava no vidro da janela do ônibus, aquele das 17:40 que se atrasa toda vez - que no fundo gosto de pensar ser um atraso proposital, porque o motorista sabe, assim como eu, que se ele não atrasar não consegue pegar os últimos raios de sol, uns que refletem bonito, feito em cena de filme do Spike Jonze- ou enquanto eu escolhia o terceiro banco da fila da direita, porque de lá da pra ver o pôr-do-sol por mais tempo, entre um afastamento de montanha e outro.
Ali também eu não acreditava que tu chegaria. Não acreditei até o momento exato da chegada.
Porque ali não teve espaço pra acomodar dúvida. Porque era. Deu pra sentir por dentro e por fora.
O emaranhado sentiu também, perdeu espaço e saiu pelas portas e janelas que se abriram. E o que era meu voltou a mim. E o que era teu ficou em mim. E preencheu e se alastrou por dentro.
Eu não acreditava que tu chegaria, mas ainda bem que tu chegou.

Tirei a batedeira da bolsa pra colocar eletrodoméstico ainda mais pesado no lugar.