Querido.

Não minto, querido, quando digo que ainda te quero bem.
Depois de todos os cafés e sinaleiras fechadas,
dos dias cheios e dos dias vazios,
depois de todo o tempo, ainda te quero bem.
Uma semana da tua partida, percebi entre a dobradiça da porta do armário e a porcelana da xícara de natal, como que esquecido de propósito, o sentimento demasiado, vasto.
Era o meu amor diminuto; feito lampejo, relâmpago,
que cai quinhentas e oitenta e cinco vezes no mesmo lugar,
quinhentas e oitenta e cinco vezes no mesmo olhar
e na mesma mão por sobre o ombro.
Entre um suspiro e o seguinte me veio teu tropeço,
aquele que acrescentou milhões de pontos ao teu charme paradoxal.


A memória é mesmo então uma ilha de edição.
Mas onde se armazena a cor e o ruído de cada instante?
Como se guarda o cheiro do abraço amarrotado?
Ninguém nos ensina
e resta-nos então, respirar o irrespirável.
Relembrar o inevitável.
Relembrar hoje, amanhã e outras quinhentas e oitenta e cinco vezes, porque tem sentimento que é assim, não dá pra abreviar.

Tua companhia foi melhor que a queima de fogos no ano novo.



Suéter

Medimos a intensidade do amor que sentimos pela quantidade de fins de mundo que construímos a cada separação. E na separação definitiva, na separação do pra sempre, a gente percebe que acaba se acostumando com o fim do mundo. Era nisso que eu pensava enquanto te via virar as costas mais uma vez. Lembro que foi entre um ponto e um contraponto, entre um cardigã e desenhos no guardanapo, que eu encontrei algo que me arremessou do círculo polar ao deserto do Atacama. Algo que me fez querer ancorar no teu suéter azul marinho.
Assim, cheguei ao lugar mais bonito do mundo. Lá havia tudo: as mãos do tamanho das minhas; o queixo do seu pai; a camisa do Mumford and Sons; o cabelo cor de mel quando o sol bate no final da tarde e cor de madeira quando não; o cachecol sendo enrolado no pescoço de novo, entre uma menção de desgosto pelo frio e outra; a fome crônica, o sono excessivo; o mesmo livro na cabeceira por meses; as quinhentas malas da mudança; a companhia e o coração enorme. Não sei por que tive que me perder de você. Não sei por que não pude seguir teus passos. Mas foi entre um por que e um porque, que me acostumei com o meu fim do mundo. Fim do mundo sem meteoros e eras glaciais, o fim do mundo da gente, a distância de quem se ama travestida de fim de mundo. Devo observar que não é algo que se aceita tão facilmente, esperamos por muito tempo que a pessoa apareça caminhando em nossa direção, do lado oposto da ponte; sentimos o perfume familiar nas calçadas forradas de rostos; temos solavancos no coração quando da dor ao perceber que os olhos não serão mais vistos do outro lado da faixa de pedestres. Mas depois de aceito, o renascer. As mãos automaticamente não procuram mais ninguém e se ajeitam nos bolsos quentes do casaco, as meias listradas escorregam como nunca no caminho do quarto para a cozinha e a caixa de chás esvazia-se com rapidez impressionante. “A gente se acostuma com o fim do mundo”, foi o que pensei ao te ver virando as costas pela última vez.
Tenho fome de me tornar tudo que não sou, tenho fome de ficção, tenho fome das fricções, de ser contra tudo que não sou, ser tudo que não sou, ser de encontro a outro, ser. Tenho fome do abraço, de me tornar o outro, me tornar o outro em tudo, me tornar o outro em tudo que não sou, mas não o nome distinto, o outro distinguido. Tenho fome de me tornar no que se esconde sob o meu nome, embaixo do nome, no subsolo do nome, o sob nome, por uma fresta num abraço contigo e assim habitar a ficção que me tornei. Me habituei em tornar tudo, todo, o tudo. E é por uma fresta de tudo, por uma fresta que tudo se fixa, por uma fresta as fixações penetram e passam a habitar.
Personagem do baile de máscaras, real, onde pessoas penetram e penetram pelas frestas e penetram num abraço contínuo, se casam, fazem casa, tornam-se uma escala crescente, milesimal, centesimal, decimal, inteira. E qual é a escala crescente ou decrescente pra saber se um milésimo, centésimo, décimo, inteiro, se revela no abraço contínuo, no abraço que me desvelou tornar.
Tenho fome de me tornar em tudo que não sou. Pessoa singular, pronome pessoal irredutível enquanto pronome, mas que se esconde, se expande, se estende sob, no sub solo do pronome eu, pessoal, irredutível e é qualquer coisa além, aquém. Qualquer dia destes eu passo pra te ver, gosto de você, de como você nem imagina, nem funciona sem tua ficção. Enquanto uso o que não tenho e o que não sou e com o mesmo fuso fundo de fundar o meu uso, eu fundo e não sou tudo que uso, tenho fome e afundo e não sou tudo. Tenho fome de me tornar, tenho fome de mim, tenho fome de ti, tenho fome da ficção e da fricção. Me aqueço, me aquece.
Eu me componho do que sou, não sou, do fundo do que funde e do que confunde. Minha composição, um modo de me tornar o não, o negativo e o vir a ser e o futuro e o passado e o passado perdido no presente. Tenho de me tornar tudo que toco, tenho de me tornar tudo, em tudo e nada, nada pode deixar de ser, nem se esconder, que nada se esconda sob o nome da palavra nada, nada, nem de leve o vento, por entre as frestas dos meus dedos, nada, nem de leve o vento por entre as frestas dos teus dedos, que nada -nunca- se esconda por entre as frestas dos teus dedos, senão os meus.

Releitura, Na esfera da produção de si-mesmo.
                 Waly Salomão.
Ao ir, me fez pequena, de modo que coube na mão.
Guardei comigo,
as ruas que asfixiamos de palavras,
o eco da tua voz e o teu cheiro em cada estação.
Falo agora, de mim e de ti, como pessoas saídas da ficção.
De modo distante, vazio.
Aprendi aos poucos que o que se deixa, não necessariamente
se perde.
Mesmo sem querermos, algo continua passeando por dentro de nós,
numa esperança desesperada
de que os pedaços perdidos e afastados se juntem.

Afinal, não somos também o que perdemos?

Percebo através de ti
E talvez justamente por isso,
que as coisas acontecem não exatamente do modo que eu gostaria
mas do modo que devem ser.