Asas de Fuligem

Ao fechar os olhos suavemente,
sinto o desenho que se forma, como em raízes
pelo meu corpo, que rebentam.
Foi me oferecido o não e o mas,
pois nunca preferi silêncio.
Essa vivência no estado do quase,
de algo inascido, mas ainda assim permanente; não foi feito para mim.
Sempre me senti infinita demais pra me acostumar com o nada.

Mudas ao peso

Na volta solitária, no que se entende interna,
percorres o abismo das coisas.
Preso ao teu olhar que percorre o céu
em busca dos deuses;
Tem teu coração que corre o céu,
os rochedos, bosques e montanhas;
vasculhando ruínas de um tempo inacabado, aproveitando amanhecências de dias não vívidos
e de um destino que antes mesmo de ser, tornou-te um, só, entregador de adeuses.

Superfície

O que eu vejo em ti, no que te transparece,
na primeira camada do que tu é,
na tua superfície rasa;
Impermanência.


Passam

Feito flauta que ecoa som
      flutua com tuas ondas sonoras
vira-me pelo avesso das coisas
faz dançar nas fitas que sacodem o tempo
dissipa-se para longe, um ser ilha
            entrelaça-se com o mar
Entrelaça-me as mãos.


Tu és a minha viagem de volta.


O retorno ao que se sente.
A sensação de se estar em casa.
És o que se espera e por isso talvez também,
o que se quebra,
antes mesmo de perder.
Não se perde apenas, se fecha.
Enquanto quebrado e fechado;
Afoga-se.
No meu esquecimento.
No teu.
E flutuando para longe, deixa a calmaria,
do que antes era só tormenta.

Remendar o Vestido

Primeiro ato: ela o ama. Escreve o nome dele em um pedaço de papel e o pendura na árvore. Dizem que é uma árvore da sorte. Ela o ama muito mais que o mensurável para desejar qualquer outra coisa.

Segundo ato: ela o ama. Escreve "quero ver a paz que encontro nos olhos dele em todos os outros olhares que a mim se dirigirem" em um pedaço de papel e o pendura na árvore. Dizem que é uma árvore da sorte. Ela o ama muito mais que o mensurável. Mas já o suficiente para o deixar ir.
Levas com a correnteza que teus
olhos tem, toda a segurança que se havia construído.

Perde-se cada vez um pequeno pedaço,
mas não num arrancar de dor, perde-se pois é tu
o pedaço que era eu,
 e parte.

Como correnteza também retornas,
quando em outra direção.
Devolvendo-te a mim mais uma vez.

Ali percebo a falta que faz,
sentir toda a força da correnteza que teus olhos tem.