Eu não acreditava que tu chegaria.
Afirmei por um bom tempo e com muita convicção, para o vento que quisesse ouvir. Porque não havia o que pudesse tirar de mim o emaranhado todo onde havia me colocado, era raiz demais, de memória demais, era terra demais, água demais, de choro demais e que de tanto demais já não era mais meu, já nem era mais eu.
Eu não acreditava que tu chegaria.
E por não acreditar, acostumei, conformei. Permaneci no emaranhado aqui de dentro.
Fiz dele casa. Morada pra viver de sonho que não acontece. Tranquei por fora e por dentro janelas e portas, pra impedir qualquer sinal de sonho novo.
Eu não acreditava que tu chegaria.
Enquanto eu me encarava no vidro da janela do ônibus, aquele das 17:40 que se atrasa toda vez - que no fundo gosto de pensar ser um atraso proposital, porque o motorista sabe, assim como eu, que se ele não atrasar não consegue pegar os últimos raios de sol, uns que refletem bonito, feito em cena de filme do Spike Jonze- ou enquanto eu escolhia o terceiro banco da fila da direita, porque de lá da pra ver o pôr-do-sol por mais tempo, entre um afastamento de montanha e outro.
Ali também eu não acreditava que tu chegaria. Não acreditei até o momento exato da chegada.
Porque ali não teve espaço pra acomodar dúvida. Porque era. Deu pra sentir por dentro e por fora.
O emaranhado sentiu também, perdeu espaço e saiu pelas portas e janelas que se abriram. E o que era meu voltou a mim. E o que era teu ficou em mim. E preencheu e se alastrou por dentro.
Eu não acreditava que tu chegaria, mas ainda bem que tu chegou.

Tirei a batedeira da bolsa pra colocar eletrodoméstico ainda mais pesado no lugar.

difícil como tirar uma batedeira da bolsa

eu olho
olho de novo
olho mais uma vez
e incontáveis
as nossas poucas memórias
e não aguento mais olhar pra elas
olhar pensando que não fazes o mesmo
olhar sabendo que as olho sozinha
olhar e ainda que triste, sorrir
porque olhar é lembrar
e lembrar é ter perto
mesmo que longe
e não aguento mais
estar longe
e sentir falta
e achar que não precisar esquecer
vai doer menos
quando eu sei que não vai
e querer esquecer
e num rompante de coragem pedir ajuda
pra deus, pro cara do posto, pra senhora da feirinha
se eles podem me livrar disso
de você
porque não tenho mais forças pra continuar te amando
e mesmo assim te amo
O que a vida fez conosco?
não com quem você é
ou quem eu sou,
mas com nós. Comigo e contigo.
Com você andando ao meu lado,
observando o chão como se ali morasse o universo inteiro
e eu andando ao teu lado,
te observando observar o chão com o universo inteiro.
O que ela fez conosco e as músicas que cantamos juntos, 
o que ela fez com os sorrisos que apareceram
em momentos que só nos era cabível chorar,
o que a vida fez conosco?
com eu e você
com tu e eu
e com todas as palavras que poderíamos ter dito
um ao outro e não dissemos?
Nos faltou um pouco mais de tempo,
nos faltou menos erros, mais acertos e talvez quem sabe um pouco de sorte.
O que a vida fez conosco?
não com quem você é
ou quem eu sou,
mas com nós. Comigo e contigo.
Com você andando ao meu lado,
observando o chão como se ali morasse o universo inteiro
e eu andando ao teu lado,
te observando observar o chão com o universo inteiro.
O que ela fez conosco e as músicas que cantamos juntos, 
o que ela fez com os sorrisos que apareceram
em momentos que só nos era cabível chorar,
o que a vida fez conosco?
com eu e você
com tu e eu
e com todas as palavras que poderíamos ter dito
um ao outro e não dissemos?
Nos faltou um pouco mais de tempo,
nos faltou menos erros, mais acertos e talvez quem sabe um pouco de sorte.
Uns dias atrás comecei a dizer em voz alta que sinto a tua falta. O universo parece contribuir para que eu me lembre de você; Beach Bummer toca em algum lugar ou o verde de alguma árvore chega aos meus olhos assim como teus olhos chegavam -  é aí que sorrateiramente o "sim, ainda sinto a tua falta" se desprende de mim e ecoa.
É difícil admitir depois de tanto tempo. É difícil admitir que tu ainda és parte de algo aqui dentro.
Pensei que ecoar os sentimentos me ajudaria a esquecer mais rápido o que precisava ser esquecido, afinal o ser humano tem orgulho, não tem? Ninguém gosta de se sentir fraco enquanto o causador de sua fraqueza, se encontra forte. Ninguém gosta da sensação de sofrer por alguém que não se sente na obrigação de sofrer por ti também. O problema é que esse tipo de escudo protetor sempre foi pesado demais para mim e não sei porque pensei que seria diferente se tratando de você; transformar amor em mágoa, sofrimento em orgulho ferido nunca foi meu forte. Decidi que o melhor seria olhar com carinho para todas as memórias, essas pequenas que vez ou outra passeiam por meus olhos;
feito as luzes coloridas daquele karaokê que te iluminaram hora sim, hora não. Não sei quanto tempo isso vai durar e nem tenho certeza que vá um dia terminar, de qualquer forma estou feliz por sentir tua falta.
Uns dias atrás comecei a dizer em voz alta que sentia a tua falta - o universo parece contribuir para que eu me lembre de você; Beach Bummer toca em algum lugar ou o verde de alguma árvore chega aos meus olhos assim como teus olhos chegavam e é aí que sorrateiramente o "sim, ainda sinto a tua falta" se desprende de mim e ecoa.
Pensei que ecoar os sentimentos me ajudaria a esquecer mais rápido o que precisava ser esquecido. Imaginei que o exercício de admitir sentimentos em voz alta, ativaria algum tipo de alavanca do meu corpo que consequentemente abriria as comportas do orgulho, afinal o ser humano é orgulhoso, não? Ninguém gosta dessa sensação de sofrer por alguém que não sente a menor obrigação de sofrer também, não por você pelo menos.
O problema é que esse tipo de escudo protetor sempre foi pesado demais para mim e não sei por que pensei que seria diferente se tratando de você; transformar amor em mágoa, sofrimento em orgulho ferido, nunca foi meu forte.
Percebi que o melhor para mim seria olhar com carinho para todas as memórias, essas pequenas que vez ou outra ainda passeiam por meus olhos; feito as luzes coloridas daquele karaokê,
que te iluminaram hora sim, hora não, na noite em que te conheci.
Não sei por quanto tempo isso ainda vai acontecer e nem se deixará algum dia de acontecer,
de qualquer forma estou feliz por sentir tua falta. E de perceber que ainda és parte de algo aqui dentro.