fiz uma playlist de "músicas que queria te mostrar"
porque todo dia encontro uma música nova,
dessas que tenho certeza que tu amaria e até colocaria na tua playlist 
como não posso mais te mandar 
tenho colocado todas elas lá
na esperança de que um dia tu as ouça
ou talvez de que um dia eu pare de encontrá-las
nunca me importei muito com o sofrimento padrão
amar sem ser amado
a reciprocidade é bonita, mas não vejo a falta dela como das maiores tristezas
sinto que me incomoda bem mais o deixar de sentir
arranca-te pedaços maiores, é uma tristeza a conta-gotas
é como se cada dia fosse uma última pequena chance
de que tudo aquilo que se sente não vá embora
mas pra onde vai tudo que se sente quando se deixa de sentir?
e como acontece isso
de um sentimento sumir?
existe algum sintoma físico?
com duas toneladas de amor indo embora, algo tu deve sentir, não é?
pode ser que aconteça durante uma conversa com teus amigos,
naquele parque que tu tanto gosta.
tu vai sentir um solavanco tão forte por dentro
que te fará cair de costas na grama,
todos te olharão assustados, mas você levantará prontamente,
limpará os pedacinhos de grama que se prenderam ao casaco
e continuará falando como se nada tivesse acontecido.
ou não?
talvez esses sentimentos não gostem de se despedir com solavancos
preferem ser discretos e desaparecerão enquanto estás distraída
esperando o troco no caixa da padaria.
talvez te doa o coração, talvez te faça cócegas nas pálpebras
talvez tu chore depois ou talvez dê risada.
não se sabe.
eu particularmente acredito que esses sentimentos bonitos
tem cara de que se aproveitam de momentos específicos, como quando
a poça da chuva molha tuas meias e tu não consegue pensar outra coisa além de
"não acredito que vou ter que ficar o resto do dia com as meias molhadas"
espero que seja em um momento assim quando acontecer comigo.




sinto a tua falta
todos os dias vivo
como vivia antes
e a cada dia parece
tornar-se
menos possível
porque quando eu olho pro espaço
eu estou olhando pra você
e posso te ver vivendo seus momentos
quero arrancar-te de dentro para fora
viver sem te ter por dentro
não sei porque ainda me demoro
já é outono lá fora
mas tu ainda faz meu coração sentir
como se fosse verão

lembro como seu cabelo não estava longo quando nos conhecemos
e como ele chegava já mais perto do teu coração quando nos despedimos
lembro das anotações do teu nome na agenda 
de enfrentar naufrágos 
e de perder a razão, o orgulho, os óculos e a mim mesma.
lembro de voltar pra cama sozinha, e saber que ainda assim estavas lá,
em outro lugar.
quando penso que nenhum livro contará a nossa história
que em nenhum lugar estará registrado
a não ser em nossas memórias já tão cansadas
me desespero em anotar e não nos fazer esquecer.

espero que daqui algum tempo ao cruzar alguma rua, 
lembre de mim,
num dia de céu claro ou de vento fraco
e lembres do primeiro dia de nossas vidas
nascemos juntos naquele refrão
que demorou pra ser 
tornamo-nos o outro 
na estrofe seguinte

você é a vida da minha vida


Eu sinto sua falta.
Sinto falta das suas pálpebras
De quando corro os dedos por elas.
Das conversas quando o quarto já está escuro.
Sinto falta daquele seu meio sorriso - ele acontece antes mesmo de você abrir os olhos.
Sinto falta de reclamar do calor
e do vento do ventilador.
Sinto falta da segurança das suas mãos,
do encaixe com elas,
e dos seus dedos passeando por mim,
que me encostam, tocam: a carne e alma.
Sinto falta de você nunca estar com sono quando eu pergunto
e sempre perguntar mesmo já sabendo a resposta.
Sinto falta da sua música
do seu cabelo no rosto enquanto toca,
e do seu cheiro no travesseiro.
Sinto falta até das suas partes insuportáveis.
Havia o medo da partida desde o primeiro encontro.
Sempre pairou desconfiança - porque era perfeição demais.
Combinavam em tudo.
Tinham as mesmas feridas
- que conseguiram cauterizar ao mesmo tempo
ao primeiro olhar.
Compartilhavam emoção, brisa, vento, vendaval.

O cenário todo simples.
Nem mais nada era necessário.
Sequer plateia.
Estavam sós e nem precisavam dizer isso aos outros
- o que por si só é prova de maturidade.

E apesar de tudo tinham medo.
Medo da falta de obstáculos.
Medo de não sofrer, ou de temer que o sofrimento viesse.

A cada dia passeavam por uma linda alameda
que conduzia a outra, ainda mais bela.
E, a cada dia, a insistência da paisagem provava que estavam
errados.

Se a atração dos opostos é regra, eles eram a definitiva exceção.

E mesmo assim, cada um a seu modo,
auguravam algum antigo ensinamento
de que tempestades são sempre visitantes sem-cerimônia.

Prosseguiam, sem incomodar o sonho alheio,
mas de certo modo sem conciliar o próprio sono.
O tempo, ainda bem, mostrou que de fato estavam errados.

                                                                     

Das perdas

A angústia de pensar que eras parte de mim e partirias.
Dentre as partes eras daquelas gigantes, ocupava um lado inteiro daqui de dentro.
Aos poucos a angústia de perder-te perdeu forças para a ansiedade, a ansiedade de ter-me de volta.
Ganhar de volta o espaço que tu ocupava e poder preenchê-lo com a felicidade que mais me enternecesse, seja ela qual fosse.