Eu sinto sua falta.
Sinto falta das suas pálpebras
De quando corro os dedos por elas.
Das conversas quando o quarto já está escuro.
Sinto falta daquele seu meio sorriso - ele acontece antes mesmo de você abrir os olhos.
Sinto falta de reclamar do calor
e do vento do ventilador.
Sinto falta da segurança das suas mãos,
do encaixe com elas,
e dos seus dedos passeando por mim,
que me encostam, tocam: a carne e alma.
Sinto falta de você nunca estar com sono quando eu pergunto
e sempre perguntar mesmo já sabendo a resposta.
Sinto falta da sua música
do seu cabelo no rosto enquanto toca,
e do seu cheiro no travesseiro.
Sinto falta até das suas partes insuportáveis.
Havia o medo da partida desde o primeiro encontro.
Sempre pairou desconfiança - porque era perfeição demais.
Combinavam em tudo.
Tinham as mesmas feridas
- que conseguiram cauterizar ao mesmo tempo
ao primeiro olhar.
Compartilhavam emoção, brisa, vento, vendaval.
O cenário todo simples.
Nem mais nada era necessário.
Sequer plateia.
Estavam sós e nem precisavam dizer isso aos outros
- o que por si só é prova de maturidade.
E apesar de tudo tinham medo.
Medo da falta de obstáculos.
Medo de não sofrer, ou de temer que o sofrimento viesse.
A cada dia passeavam por uma linda alameda
que conduzia a outra, ainda mais bela.
E, a cada dia, a insistência da paisagem provava que estavam
errados.
Se a atração dos opostos é regra, eles eram a definitiva exceção.
E mesmo assim, cada um a seu modo,
auguravam algum antigo ensinamento
de que tempestades são sempre visitantes sem-cerimônia.
Prosseguiam, sem incomodar o sonho alheio,
mas de certo modo sem conciliar o próprio sono.
O tempo, ainda bem, mostrou que de fato estavam errados.
Sempre pairou desconfiança - porque era perfeição demais.
Combinavam em tudo.
Tinham as mesmas feridas
- que conseguiram cauterizar ao mesmo tempo
ao primeiro olhar.
Compartilhavam emoção, brisa, vento, vendaval.
O cenário todo simples.
Nem mais nada era necessário.
Sequer plateia.
Estavam sós e nem precisavam dizer isso aos outros
- o que por si só é prova de maturidade.
E apesar de tudo tinham medo.
Medo da falta de obstáculos.
Medo de não sofrer, ou de temer que o sofrimento viesse.
A cada dia passeavam por uma linda alameda
que conduzia a outra, ainda mais bela.
E, a cada dia, a insistência da paisagem provava que estavam
errados.
Se a atração dos opostos é regra, eles eram a definitiva exceção.
E mesmo assim, cada um a seu modo,
auguravam algum antigo ensinamento
de que tempestades são sempre visitantes sem-cerimônia.
Prosseguiam, sem incomodar o sonho alheio,
mas de certo modo sem conciliar o próprio sono.
O tempo, ainda bem, mostrou que de fato estavam errados.
Das perdas
A angústia de pensar que eras parte de mim e partirias.
Dentre as partes eras daquelas gigantes, ocupava um lado inteiro daqui de dentro.
Aos poucos a angústia de perder-te perdeu forças para a ansiedade, a ansiedade de ter-me de volta.
Ganhar de volta o espaço que tu ocupava e poder preenchê-lo com a felicidade que mais me enternecesse, seja ela qual fosse.
Dentre as partes eras daquelas gigantes, ocupava um lado inteiro daqui de dentro.
Aos poucos a angústia de perder-te perdeu forças para a ansiedade, a ansiedade de ter-me de volta.
Ganhar de volta o espaço que tu ocupava e poder preenchê-lo com a felicidade que mais me enternecesse, seja ela qual fosse.
TENHO MEDO DESSE NOSSO DESESPERO,
DO ANSEIO DESMEDIDO
QUE NOS QUEBRA DE DENTRO PARA FORA, DE FORA PARA DENTRO
TENHO MEDO QUE NOSSAS ALMAS SE CHOQUEM
E ESTOUREM EM FOGOS DE ARTIFíCIO PÚRPURA
TENHO MEDO QUE DEPOIS NÃO TENHAMOS MAIS CONSERTO
QUE NADA TEREMOS POR FAZER
E SÓ NOS RESTARÁ O REFAZER, QUE SE FAZ, MAS FAZ-SE LONGE
TENHO MEDO QUE AS QUEBRAS
DE DENTRO PARA FORA
E AS DE FORA PARA DENTRO
QUE SÃO FEITO ONDA EM PEDRA,
REBENTEM EM MARÉ OPOSTA
DE DENTRO PARA FORA DE MIM
DE DENTRO PARA LONGE DE TI
ESSE NOSSO DESESPERO PODE NOS LEVAR BEM LONGE,
OU PARA BEM LONGE UM DO OUTRO.Senha dois, por favor.
Hoje pela manhã enquanto enfrentava um dos maiores temores da humanidade atual - a fila - troquei algumas poucas, mas simpáticas palavras com um senhor de cabelos brancos, postura arqueada e mãos marcadas. Infelizmente não tivemos tempo de nos apresentar pois logo sua senha foi chamada, então só o que sei é que a dor que ele sente nas costas tem melhorado muito e que depois de marcar sua consulta teria que apressar o passo para não perder o ônibus.
Depois de alguns minutos ao sair da sala, me dirigiu um aceno suave. Observei-o partir com seus passos incertos, fui com ele até onde meus olhos alcançavam. Antes de atravessar a porta em direção a rua ele parou por poucos segundos, ajeitou a camisa de flanela por dentro da calça social e aí então, partiu. Foi ali naquele exato momento, que todo o peso daquela vida caiu sobre mim.
Percebi que as marcas em suas mãos não eram só do trabalho pesado de uma vida inteira, que as costas arqueadas não se deviam somente as dores; ali estava o peso de muitas tristezas e grandes amores, as marcas nas mãos eram das centenas de carinhos trocados e também daquela mão amiga apertada em uma esquina qualquer a quarenta e tantos anos atrás. Entende?
Cada passo incerto daquele homem carrega tantas memórias que seria impossível de contar; seus ouvidos carregam a voz do Sinatra e a do homem que narrava o jogo na rádio. Seus olhos ao percorrerem as vitrines vêem chapéus e ternos cor de pêssego. Tem também o canto dos olhos dele que se observar bem, é possível enxergar pequenos sorrisos escondidos entre as rugas. Sorrisos que foram 'sorridos' com quem talvez nem está mais aqui. É como se a vida fosse uma grande mala, que cada um de nós vai enchendo enquanto o tempo corre.
Espero que um dia, daqui quarenta e tantos anos, algum jovem olhe para mim e perceba o mesmo. Espero fazer uma mala de boas histórias, bonitas lembranças e sussurros de The Way You Look Tonight - porque Sinatra a gente não tira da mala nunca. Quero iluminar a vida de outra pessoa com a minha, como esse senhor fez comigo.
Durante o resto do dia, a única coisa em que consegui pensar foi se aquele homem conseguiu com todo aquele peso bonito de memórias apressar o passo o suficiente pra não perder seu ônibus.
Espero que sim.
Depois de alguns minutos ao sair da sala, me dirigiu um aceno suave. Observei-o partir com seus passos incertos, fui com ele até onde meus olhos alcançavam. Antes de atravessar a porta em direção a rua ele parou por poucos segundos, ajeitou a camisa de flanela por dentro da calça social e aí então, partiu. Foi ali naquele exato momento, que todo o peso daquela vida caiu sobre mim.
Percebi que as marcas em suas mãos não eram só do trabalho pesado de uma vida inteira, que as costas arqueadas não se deviam somente as dores; ali estava o peso de muitas tristezas e grandes amores, as marcas nas mãos eram das centenas de carinhos trocados e também daquela mão amiga apertada em uma esquina qualquer a quarenta e tantos anos atrás. Entende?
Cada passo incerto daquele homem carrega tantas memórias que seria impossível de contar; seus ouvidos carregam a voz do Sinatra e a do homem que narrava o jogo na rádio. Seus olhos ao percorrerem as vitrines vêem chapéus e ternos cor de pêssego. Tem também o canto dos olhos dele que se observar bem, é possível enxergar pequenos sorrisos escondidos entre as rugas. Sorrisos que foram 'sorridos' com quem talvez nem está mais aqui. É como se a vida fosse uma grande mala, que cada um de nós vai enchendo enquanto o tempo corre.
Espero que um dia, daqui quarenta e tantos anos, algum jovem olhe para mim e perceba o mesmo. Espero fazer uma mala de boas histórias, bonitas lembranças e sussurros de The Way You Look Tonight - porque Sinatra a gente não tira da mala nunca. Quero iluminar a vida de outra pessoa com a minha, como esse senhor fez comigo.
Durante o resto do dia, a única coisa em que consegui pensar foi se aquele homem conseguiu com todo aquele peso bonito de memórias apressar o passo o suficiente pra não perder seu ônibus.
Espero que sim.
Parabéns pra mim
Tenho me sentido cheia de vazio.
Mesmo quando rodeada de sorrisos,
cantos agúdos de pássaros pela manhã,
acordes tocados em baixo tom no violão
ou de bemóis desafinados do piano.
Mesmo que tudo isso ainda me atinja bem no centro do peito. E atinge. E acerta.
Nada mais parece conseguir permear.
Lembro como era me sentir astro no céu. Sorrio por dentro, é como se fosse algo mais distante que outra vida; Sinto falta da sensação de tornar-me completa com o que quer que a vida me oferecesse.
Mas nos últimos tempos a única coisa que tem conseguido morada por aqui é essa imensa vontade de apenas: não ser. Não ser mais nada.
Mesmo quando rodeada de sorrisos,
cantos agúdos de pássaros pela manhã,
acordes tocados em baixo tom no violão
ou de bemóis desafinados do piano.
Mesmo que tudo isso ainda me atinja bem no centro do peito. E atinge. E acerta.
Nada mais parece conseguir permear.
Lembro como era me sentir astro no céu. Sorrio por dentro, é como se fosse algo mais distante que outra vida; Sinto falta da sensação de tornar-me completa com o que quer que a vida me oferecesse.
Mas nos últimos tempos a única coisa que tem conseguido morada por aqui é essa imensa vontade de apenas: não ser. Não ser mais nada.
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