Leitor da carta que conta e chora.
Alvor da peça que se apresenta.
Espero te ver lá fora.
Mesmo que em manhã cinzenta.

Trago-te a ti o que tudo é meu
Vejo em ti tudo que em mim vive.
Você diz, sou seu.
Eu digo assim sempre te tive.







Fingindo que não se importa.
Fingindo que finge ser.
Tentando sair à porta.
Fazendo como quem faz esquecer.

Correndo pelo campo
Fugindo da saudade
Tentando chegar a tempo
Não chegou, já muito tarde.

Vira a volta, sai correndo.
Gira a corda no jardim.
Que fazer com o amor
Que sobrou dentro de mim.


Olha o dente-de-leão.
Voa voa com o vento.
Vai levando a solidão.
Me deixando com o tormento.

Venta o vento nos cabelos.
Gira a roda no jardim
la la la laia
Eu sem roda rodo assim.


Voando com o vento que venta.
Esquecendo quem se esquece de mim.
a menina
acorda assustada
no meio da noite
procura arrastada
pelo copo de leite

a flor está no chão
tentando chegar a porta 
fugindo da solidão
nada mais importa

antes da partida 
um ultimo suspirar 
uma pequena despedida
com vontade de chorar

pensa estar errada
em a menina ali deixar
sente-se egoísta
e decide ao vaso voltar

já na segunda hora da manhã a menina acorda
olha a flor um tanto torta
já não lhe quer, prefere uma rosa
joga-a então pela janela aberta

lá no chão o copo de leite chora
nunca mais terá compaixão
se atreve até a dizer que nenhum amor
tocará de novo o seu coração












Vergonhoso o fato de querer-te presente.
De perceber que uma simples e distante presença me faz feliz.
Engraçado ver que conforme passeias de modo disfarçado para longe de mim
conforme se aplica na busca desenfreada pela fuga
Me arrasta contigo
Me deseja presente.
Longe.
Acho feliz.
Feliz decisão.
Essa de me ver encolhendo.
Abraçando-me por dentro numa espécie de contorcionismo doentio.
Fingir um certo 'importar' com minha dor.
E seguir em frente.
Motivo. Nenhum aparente.
Seria a sua eterna busca pela felicidade.
Tão superestimada.
Felicidade.
Apenas felicidade.
Enjoa.


A capacidade de ter sentimentos opostos.
Aleatórios.
Desconexos.
Sobre tudo.
Sobre você.
Querer a preocupação dos outros.
Querer que se importem.
Mas querer também afastá-los.
Todos.
É como pedir a chave da cela e logo em seguida jogá-la pela janela.
É não gostar de estar presente e nem de não ser lembrada.
É não amar alguém até o momento em que ele diz adeus.
É mudar pra agradar mesmo desprezando-se por isso.
É detestar-se por ser tola e frágil
mas não sentir a necessidade de ser forte.
A estranha capacidade de ser.





Vou me entregar a vocês
Vocês estão me devorando por dentro.
Tentando-me a imaginar ser algo que não sou
que não posso ser.
Me fazem companhia nas noites frias.
Dormem sobre meu peito.
São tocados pelas minhas mãos todos os dias.
Estão constantes.
Escondidos.
Perdidos.
Nas estantes.
Nas gavetas.
Esquecidos no consultório do dentista.
Sinto a ausência.
Depois de usados. Virados e revirados.
Esqueço-lhes nos cantos.
Livros são como pessoas.