lembro como seu cabelo não estava longo quando nos conhecemos
e como ele chegava já mais perto do teu coração quando nos despedimos
lembro das anotações do teu nome na agenda 
de enfrentar naufrágos 
e de perder a razão, o orgulho, os óculos e a mim mesma.
lembro de voltar pra cama sozinha, e saber que ainda assim estavas lá,
em outro lugar.
quando penso que nenhum livro contará a nossa história
que em nenhum lugar estará registrado
a não ser em nossas memórias já tão cansadas
me desespero em anotar e não nos fazer esquecer.

espero que daqui algum tempo ao cruzar alguma rua, 
lembre de mim,
num dia de céu claro ou de vento fraco
e lembres do primeiro dia de nossas vidas
nascemos juntos naquele refrão
que demorou pra ser 
tornamo-nos o outro 
na estrofe seguinte

você é a vida da minha vida


Eu sinto sua falta.
Sinto falta das suas pálpebras
De quando corro os dedos por elas.
Das conversas quando o quarto já está escuro.
Sinto falta daquele seu meio sorriso - ele acontece antes mesmo de você abrir os olhos.
Sinto falta de reclamar do calor
e do vento do ventilador.
Sinto falta da segurança das suas mãos,
do encaixe com elas,
e dos seus dedos passeando por mim,
que me encostam, tocam: a carne e alma.
Sinto falta de você nunca estar com sono quando eu pergunto
e sempre perguntar mesmo já sabendo a resposta.
Sinto falta da sua música
do seu cabelo no rosto enquanto toca,
e do seu cheiro no travesseiro.
Sinto falta até das suas partes insuportáveis.
Havia o medo da partida desde o primeiro encontro.
Sempre pairou desconfiança - porque era perfeição demais.
Combinavam em tudo.
Tinham as mesmas feridas
- que conseguiram cauterizar ao mesmo tempo
ao primeiro olhar.
Compartilhavam emoção, brisa, vento, vendaval.

O cenário todo simples.
Nem mais nada era necessário.
Sequer plateia.
Estavam sós e nem precisavam dizer isso aos outros
- o que por si só é prova de maturidade.

E apesar de tudo tinham medo.
Medo da falta de obstáculos.
Medo de não sofrer, ou de temer que o sofrimento viesse.

A cada dia passeavam por uma linda alameda
que conduzia a outra, ainda mais bela.
E, a cada dia, a insistência da paisagem provava que estavam
errados.

Se a atração dos opostos é regra, eles eram a definitiva exceção.

E mesmo assim, cada um a seu modo,
auguravam algum antigo ensinamento
de que tempestades são sempre visitantes sem-cerimônia.

Prosseguiam, sem incomodar o sonho alheio,
mas de certo modo sem conciliar o próprio sono.
O tempo, ainda bem, mostrou que de fato estavam errados.

                                                                     

Das perdas

A angústia de pensar que eras parte de mim e partirias.
Dentre as partes eras daquelas gigantes, ocupava um lado inteiro daqui de dentro.
Aos poucos a angústia de perder-te perdeu forças para a ansiedade, a ansiedade de ter-me de volta.
Ganhar de volta o espaço que tu ocupava e poder preenchê-lo com a felicidade que mais me enternecesse, seja ela qual fosse.

TENHO MEDO DESSE NOSSO DESESPERO,
DO ANSEIO DESMEDIDO
QUE NOS QUEBRA DE DENTRO PARA FORA, DE FORA PARA DENTRO

TENHO MEDO QUE NOSSAS ALMAS SE CHOQUEM
E ESTOUREM EM FOGOS DE ARTIFíCIO PÚRPURA

TENHO MEDO QUE DEPOIS NÃO TENHAMOS MAIS CONSERTO
QUE NADA TEREMOS POR FAZER 
E SÓ NOS RESTARÁ O REFAZER, QUE SE FAZ, MAS FAZ-SE LONGE

TENHO MEDO QUE AS QUEBRAS 
DE DENTRO PARA FORA
E AS DE FORA PARA DENTRO 
QUE SÃO FEITO ONDA EM PEDRA,
REBENTEM EM MARÉ OPOSTA
DE DENTRO PARA FORA DE MIM
DE DENTRO PARA LONGE DE TI

ESSE NOSSO DESESPERO PODE NOS LEVAR BEM LONGE, 
OU PARA BEM LONGE UM DO OUTRO.




You should have known that I'll suck at goodbyes,
the moment I told you
that I am currently reading three books.
Simultaneously.

Senha dois, por favor.

  Hoje pela manhã enquanto enfrentava um dos maiores temores da humanidade atual - a fila -  troquei algumas poucas, mas simpáticas palavras com um senhor de cabelos brancos, postura arqueada e mãos marcadas. Infelizmente não tivemos tempo de nos apresentar pois logo sua senha foi chamada, então só o que sei é que a dor que ele sente nas costas tem melhorado muito e que depois de marcar sua consulta teria que apressar o passo para não perder o ônibus.
  Depois de alguns minutos ao sair da sala, me dirigiu um aceno suave. Observei-o partir com seus passos incertos, fui com ele até onde meus olhos alcançavam. Antes de atravessar a porta em direção a rua ele parou por poucos segundos, ajeitou a camisa de flanela por dentro da calça social e aí então, partiu. Foi ali naquele exato momento, que todo o peso daquela vida caiu sobre mim.
Percebi que as marcas em suas mãos não eram só do trabalho pesado de uma vida inteira, que as costas arqueadas não se deviam somente as dores; ali estava o peso de muitas tristezas e grandes amores, as marcas nas mãos eram das centenas de carinhos trocados e também daquela mão amiga apertada em uma esquina qualquer a quarenta e tantos anos atrás. Entende?
Cada passo incerto daquele homem carrega tantas memórias que seria impossível de contar; seus ouvidos carregam a voz do Sinatra e a do homem que narrava o jogo na rádio. Seus olhos ao percorrerem as vitrines vêem chapéus e ternos cor de pêssego. Tem também o canto dos olhos dele que se observar bem, é possível enxergar pequenos sorrisos escondidos entre as rugas. Sorrisos que foram 'sorridos' com quem talvez nem está mais aqui. É como se a vida fosse uma grande mala, que cada um de nós vai enchendo enquanto o tempo corre.
   Espero que um dia, daqui quarenta e tantos anos, algum jovem olhe para mim e perceba o mesmo. Espero fazer uma mala de boas histórias, bonitas lembranças e sussurros de The Way You Look Tonight - porque Sinatra a gente não tira da mala nunca. Quero iluminar a vida de outra pessoa com a minha, como esse senhor fez comigo.

Durante o resto do dia, a única coisa em que consegui pensar foi se aquele homem conseguiu com todo aquele peso bonito de memórias apressar o passo o suficiente pra não perder seu ônibus.
Espero que sim.